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13 de jul de 2009

Sábado Feliz - 11/06/2009



Noite de sábado, dia para o amor,
desafios, mistérios novos a serem desvendados...


Vivendo com um intenso resfriado, não me atrevo a ser companhia
para nenhuma mulher em busca de aventura, carinho e momentos
doces.

À noite esta fria, a chuva persiste.
Sendo assim, fica mais fácil, ter um sábado só meu e tranqüilo.
Perfeito para refletir a mulher...

O relógio marca vinte e trinta, tomo uma ducha gostosa.
Visto o roupão preto, olho no espelho e sorriu.
Gosto de viver a idade que tenho.
Sou um homem, um ser definido, sem muitas duvidas, mas com um
monte de sonhos.
Sonhos que me fazem ver que a realidade, mesmo dura, vale à pena.

Vou à adega, retiro a garrafa de um maravilhoso Porto.
Sirvo um pequeno cálice, o coloco contra a luz e sua cor
rubi-escuro, que me da imensa satisfação.
Gosto do belo, do doce, do conquistável.

Sentado no chão do escritório, faço passar o tempo, tentando
curtir com vagar, o antes de sorver aquele néctar, que tanto
prazer me proporciona.

Vem a vontade de acender um cigarro, mas a responsabilidade e
promessas lembram que não posso falhar nem quebrar minha palavra
e principalmente porque ainda gosto de viver essa vida.

Resignado e ainda com o pequeno cálice ao meu lado, pego o
cachimbo, o preparo com demasiada calma, acendo, brinco com a
fumaça em minha boca para em seguida despejá-la no cálice.

Sorvo o Porto com os olhos fechados, sentindo todo o seu aroma, o
sabor doce das manhãs felizes que vivi.

Vou bebendo aos poucos, fazendo o possível, para que o momento se
prolongue mais e mais...

Um som baixinho acompanha minha viagem, que como companhia tem
apenas minhas lembranças e emoções.

Acabado o vinho, fico recostado à parede e olhando para o futuro,
penso no passado.
Vislumbro as ruas de mão única que percorri em busca de sucesso.
Percorro também as grandes vias de mão dupla, constatando na
lembrança, que essas foram feitas para que se dividam os caminhos
de idas e vindas das realizações.

Sorrindo para a vida, sinto que estou com fome.
Para saciá-la, teria que pedir para que fizessem alguma coisa para
comer, ou sair para jantar em algum lugar.
Não quero nada disso.

Penso rápido, que tal a casa de minha mãe.
Com certeza, há de ter algo gotoso para saciar minha fome... rs

- Boa noite Doutor!
_ Boa noite.
_ Onde esta a dona da casa?
- Esta na biblioteca Senhor.
_ Obrigado.

Já no corredor chamo...


_ Mãe!!!
- Oi meu filho, meu amor.
_ Mãe, posso te fazer companhia em um jantar a luz de velas, só
com nós dois?
- Seria maravilhoso filho, mas tudo o que tínhamos pronto, o
pessoal da casa, já deve ter comido.

Sabia que se pedisse, ela mesma iria querer preparar alguma coisa
para eu comer.

_ Tudo bem, Dona Senhora.
_ Vou invadir sua cozinha e prepararei alguma coisa.
- Deixa que te ajudes filho.
_ Não precisa, fique ai vendo sua novela, que logo volto.

Indo para a cozinha, encontro a enfermeira que dorme toda noite
na casa, responsável por cuidar de minha mãe e Patrícia.
Falando em Patrícia, ela viajou com meu sobrinho e seus filhos
para Campos de Jordão no feriado de quinta.
Voltará apenas no domingo.

Ismênia assistia à televisão entretida com um programa que
prega algum tipo barato de religião.

_ Boa noite, vejo que esta tudo bem por aqui.
- Boa noite doutor, esta tudo sob controle.

Respondeu Ismenia com aquele ar de profissional responsável.

_ Obrigado, boa noite
- Boa noite senhor.

Na cozinha, chegara era o momento em que todas as minhas
habilidades culinárias seriam postas a prova.

Logo encontrei um ravióli de queijo, uns espetos com queijo Coalho
e batatas palito pré-cozidas.
O Ravióli foi para o microondas, o queijo para a grelha do fogão e
as batatas para a fritadeira elétrica.

Em poucos minutos, tudo pronto.
De posse de uma bandeja, coloquei os pratos, uma garrafa de
refrigerante, guardanapos, sal, etc.
Com isso, estava pronto o mais rápido jantar já feito naquela
casa.

De volta para a biblioteca, minha mãe me olha com carinho dizendo
que a novela acabara.

_ Minha Senhora, o que vamos ver enquanto degustamos esses
espetaculares manjares que preparei para nós dois?

Sabia que ela já tinha feito sua ultima refeição do dia, mas fingi
esquecer.

- Filho, deve estar tudo muito gostoso, mas não posso comer mais
nada hoje, senão não dormirei bem.

_ Ok minha mãe, mas prove ao menos umas duas batatinhas.
_ Juro que não conto para o sargento ai do lado.

Um sorriso lindo iluminou a face daquela mulher, que apesar de
seus oitenta e um anos, ainda guardava um bom bocado de sua beleza
que se perdera um pouco com o passar dos anos.

Comendo devagar para acompanhá-la em seu próprio ritmo, pergunto
cheio de carinho.

_ O que a senhora ira assistir hoje?
_ Vamos ver juntos?

- Hoje tem o show do Roberto Carlos, para comemorar os cinqüenta
anos de sua carreira.
- Vai ser lindo filho.

_ Que bom mãe, vamos curtir o Roberto juntos então.
- Filho me ajuda a ficar acordada, não dormir antes que acabe.
_ Claro, ainda mais que esse show é melhor que qualquer filme
americano tipo C que costuma passar nesse horário.

Deixando a bandeja na mesa ao lado, sento no mesmo sofá de minha
mãe.
Com delicadeza a puxo para perto de mim, num abraço carinhoso.
Ela fica toda encolhidinha, logo segurando minha mão.

O Show começa e nós dois ali abraçados, assistindo e tendo cada
um, sua própria viagem.

Penso em como é bom estar ali.
Sabia que ela ia se emocionar com as musicas do Rei.

A Cada nova canção, todas muito significativas para nós dois,
tratávamos de nos acolher mais ainda um ao outro.
Ela propositadamente escondeu seu rosto em meu peito.

Eu sabia que em alguns momentos, muitas lágrimas molhariam o rosto
daquela sensível mulher.

Roberto começa a cantar “VOCÊ FOI O MAIOR DOS..."

Imediatamente percebi que muitas lágrimas acabaram por molhar minha
camisa, onde o rosto de minha mãe se guardava.

Acarinhando os cabelos muito brancos de sua sabia cabecinha, viajei junto
com ela.
As musicas iam acontecendo e a emoção tomou conta da sala,
fazendo com que o ambiente ficasse repleto de pensamentos e
lembranças boas.

De repente soam as primeiras notas da música "Meu velho meu amigo", peço perdão
se não é esse o nome correto.
No mesmo instante o silencio tomou conta de nós dois e apenas os
soluços poderiam ser ouvidos.

Pensamos juntos no mesmo ser.

Ela, no companheiro, no marido, no amante e amigo, que por
sessenta anos haviam trilharam um caminho juntos de muitas lutas
e amor eterno.
Eu por minha vez, tinha meu pai no pensamento e poderia sentir
mais que nunca, como aquele homem simples e de poucas palavras,
fazia-me tanta falta.

Choramos copiosamente os dois juntos.

Na verdade, eu que deveria estar consolando aquela grande
guerreira, mas é ela que com um lencinho enxugava minhas lágrimas
sentidas e abundantes.

- Filho, você esta chorando.
- Chora sim, faz bem e é bom.

_ Eu sei...

Respondi abraçando mais ainda aquele corpinho frágil que carregava
em seu interior, a força de um exercito.

- Filho, você acredita que seu pai foi o nosso maior amigo?
_ Claro mãe, sei sim.
- Mas será que sabe que foi você, o melhor de todos os amigos dele?
- O que ele mais amava e confiava?

- Filho, seu pai tinha você como professor e aluno ao mesmo tempo.
- Seu único amigo de verdade.

- Sabia disso filho?
_ Sentia assim minha mãe.

- Então, para que chorar de tristeza?
- Se precisa chorar, que seja de orgulho e felicidade por seu pai
ser o que foi para todos nós.

- Anda, vamos continuar a ver o Robertinho.

_ Ta certo, mas a senhora pare de chorar também.
_ Mas se não aguentar e quiser chorar mais, me avisa para que
choremos juntos.

Daí pra frente, gastamos uma caixa de lenços cada um...

Já perto do fim, notei que minha velha e sabia guia, estava
quietinha.
O show nem acabara ainda e ela dormia tranquila, segurando minha
mão.

Com extremo cuidado, coloco-a no colo, como esta levinha minha
mãe. Caminhei até seu quarto,nessa hora, já acompanhado de Ismênia.

A coloquei na cama ajeitei o travesseiro, a cobri com cuidado
para não acordá-la.
Acendi o abajur, com uma luz bem fraquinha, dei-lhe um beijo,
agradecendo silenciosamente, mais uma vez, por ser um homem de
sorte.

Ismênia sentou-se na cama destinada a ela, para que pudesse estar
sempre pronta a ajudar minha mãe.

De repente, Ela olhando-me carinhosamente, disse...

- Fique tranquilo doutor.
- Ela estará sendo cuidada a noite toda.

_ Obrigado Ismênia, fiquem bem.
_ Boa noite.
- Boa noite doutor.

Dirigindo-me para a porta do quarto, tentando não fazer muito
ruído ouço minha mãe me chamando baixinho.

- Filho...
_ Oi minha mãe.
- Venha pertinho de mim e me de um abraço e um beijo de boa noite.

De volta à cama, sentei-me a seu lado e ela me puxou, beijou-me as
faces me abraçou forte segredando em meu ouvido...

- Obrigada filho.
- Quero dizer que você me fez muito feliz hoje e que você não é só
o ser que amo mais que tudo, mas meu melhor amigo também.
- Te amo muito, durma bem e sonhe com os anjos que vivem a te
acompanhar.

_ Boa noite mãe, obrigado.

Já no elevador, ainda descendo, pensei naquela noite fria de um
sábado comum.
Tentando ser forte tentei pensar em outras coisas, mas não
aguentei e num soluço forte... Chorei.

Um choro forte, um choro de felicidade, um choro de menino...

_ Obrigado pelo sangue que carrego nas veias.


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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons

4 comentários:

R.Cássia disse...

Sem comentários!
Se me permite dizer apenas... Parabéns!
Por tudo!!!
Bjks!

Debora disse...

Lindo!!!bjmeu, lagrimas minhas...Amada Rita!!

Tania Medeiros disse...

Rilton
Encantada!!!
Que belos minutos, horas vividas!!!
Que sensibilidade!!!
Que amor!!!
Que pessoa linda que é você!!!
Que pessoa linda que é sua mãe!!!
Que pessoa linda que foi seu pai!!!
..................................
Obrigada por me permitir ser tua amiga.
Te abraço forte!

Nanci Cerqueira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.